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Produzir etanol ou importar gasolina

Publicada em 28-07-2013


Em recente evento de etanol realizado pela UNICA em São Paulo, um técnico do ministério de Minas e Energia projetou o consumo adicional de combustíveis dos automóveis ciclo Otto (gasolina ou flex) em 25 bilhões a 30 bilhões de litros em 2020. O objetivo deste artigo é discutir como suprir essa demanda adicional. Do lado da oferta, é fato que teremos pouco crescimento na produção de gasolina. Restariam então duas alternativas à sociedade brasileira: produzir etanol (A) ou importar gasolina (B).

Optando por A, com a ampliação e construção de novas usinas, reativando os setores de bens de capital e também o setor agrícola, trazendo milhões de hectares de pastos para a produção de cana, poderiam ser gerados quase 100 mil empregos diretos no interior do Brasil e, com esses investimentos, dar um empurrão no preguiçoso PIB brasileiro. Também geraria açúcar exportável para contribuir na balança comercial, e com a cogeração de eletricidade a partir do bagaço, desligar as caras térmicas movidas a óleo.

Pesquisa feita em Quirinópolis (GO) e em Caarapó (MS) mostrou os benefícios econômicos, sociais e ambientais do investimento em cana. Em Quirinópolis, antes de duas usinas chegarem (2005), existiam 1.000 empresas e 5 mil empregos formais. Seis anos depois, eram 3.300 empresas e 11 mil empregos, com o salário médio saltando de R$ 700 para R$ 1.500. A arrecadação de ISS multiplicou por 10 e a de ICMS pulou de R$ 8 milhões para R$ 25 milhões.

A usina de cana gera renda nova, que circula no município e é amplamente distribuída via salários, impostos e aquisições de produtos e serviços, movimentando setores como construção civil, restaurantes e comércio. Gera um efeito multiplicador: basta visitar esses municípios e conhecer o "Brasil chinês", empreendedorismo puro.

Após análise da competitividade do Brasil em diversos setores sob um enfoque internacional, fica a questão: que outra alternativa de desenvolvimento tão rápida teriam esses municípios do interior do Brasil? Imaginem o impacto de 80 novas usinas planejadas em 80 cidades do interior gerando riqueza. Fora isso, todos os países buscam ter segurança energética, e o Brasil caminha em sentido contrário. 

Se a opção for B, de importar gasolina, além de abrir mão dos benefícios acima, é necessário gerar excedentes de exportação para pagar pelo combustível importado. Vale lembrar que a balança comercial apresenta em 2013 o pior resultado em quase 20 anos, fruto da perda da capacidade competitiva de nossas empresas, por fatores amplamente conhecidos.

Supondo em 2020 um preço de US$ 1 por litro, seriam quase US$ 30 bilhões gastos por ano para importar a gasolina. Setores que hoje conseguem exportar, que são os poucos ligados ao agronegócio (carnes bovina e suína, frango, café, papel e celulose, suco de laranja e algodão), terão que dobrar exportações em apenas seis anos somente para pagar essa gasolina, uma solicitação desejável, porém infactível. Portanto, como a sociedade brasileira pagará, se optar pela alternativa B? Existe infraestrutura logística para receber esse volume? 

Ainda deve ser considerado e precificado que a opção B, uma vez que a gasolina é extremamente mais poluente que o etanol, complicará a questão ambiental.

A proposta de retomar a incidência da Cide no preço da gasolina feita pelos prefeitos, investindo e estimulando via redução de preços o transporte coletivo, poderia ter efeito neutralizado na inflação e daria grande impulso ao etanol. A sociedade precisa optar entre A ou B. Se for A, está no limite para que dê tempo, afinal faz cinco anos que esse cenário é conhecido. 

Com meu viés de geração de valor e renda, empreendedorismo, desenvolvimento econômico, criação de posições de trabalho para inclusão social, potência ambiental e de segurança energética, voto A.


* Marcos Fava Neves É Professor Titular Na Fea/usp, Campus Ribeirão Preto, e Professor Visitante Internacional da Purdue University Em 2013.