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A riqueza está no bagaço

Publicada em 13-02-2011


Em 1991, a bioquímica brasileira Elba Bon voltava de uma temporada de cinco anos na Universidade de Manchester, na Inglaterra, com o grau de doutora. Ela tinha uma ideia: aproveitar a cana até o bagaço – literalmente. Para produzir mais álcool, propunha "digerir" a cana inteira, em escala industrial, com proteínas similares às que aceleram reações químicas no corpo humano, chamadas enzimas. Elba se inspirava em experiências vistas no Reino Unido, mas sabia que ninguém no mundo detinha uma tecnologia financeiramente satisfatória para criar um processo industrial.

Elba é uma mulher de modos afáveis, que fica tomada de empolgação juvenil ao falar da cana e de tópicos nem tão apetitosos, como "hidrólise enzimática" ou "xarope de biomassa". Ao tratar do que considera uma questão estratégica nacional, muda o tom: "Se o Brasil quiser usar seu potencial no negócio da cana, a única saída é investir. Temos de desenvolver nossa própria tecnologia".

O desafio de extrair álcool do bagaço da cana virou prioridade no laboratório chefiado por Elba, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Para avançar mais rapidamente, formou uma rede de pesquisadores na academia e em empresas. Para fazer o conhecimento circular, promoveu o primeiro congresso internacional sobre o tema no Brasil, em 1993. Agora, duas décadas após seu retorno da Inglaterra, ela espera tornar sua visão realidade. Nos próximos meses, a empresa mineira Biomm pretende aplicar as enzimas de Elba em escala industrial. "Requisitamos um pedido de patente no Brasil e no exterior para essa mistura enzimática", diz Elba.

O caso de Elba é uma exceção. Ela faz parte de uma reduzida elite nacional que se preocupa com a disputa com outros países numa área em que o Brasil poderia ser o maior protagonista: as pesquisas na nova economia global do etanol. De acordo com um estudo do Instituto Nacional da Propriedade Industrial, a que ÉPOCA teve acesso, os Estados Unidos e o Japão avançam sobre a área de patentes cuja liderança caberia ao Brasil.

No setor de álcool e açúcar, empresas e cientistas brasileiros pedem patentes só no degrau mais baixo de tecnologia, que inclui equipamentos mecânicos para plantio e colheita. No degrau mais complexo, que inclui a biotecnologia e enzimas como a de Elba, ficamos para trás. O exemplo de Elba mostra que poderíamos nos beneficiar com a venda de produtos e serviços baseados em inovação e conhecimento científico. Mas os dados do estudo revelam que estamos entrando no universo global do etanol apenas em nosso tradicional papel de exportadores de álcool e matérias-primas. Anna Carolina Lementy e Marcela Buscato