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Incerteza climática ameaça o balanço do agronegócio

Publicada em 13-10-2010


As expectativas positivas quanto à safra de grãos do ano agrícola 2010/2011 estão ameaçadas pelo fenômeno climático conhecido como La Niña - esfriamento das águas do Oceano Pacífico, risco de secas intensas na Região Sul e chuvas excepcionais no Norte e no Nordeste. Dada a dependência brasileira do superávit do agronegócio, surge um foco de incerteza para 2011, quando se prevê um novo agravamento do cenário cambial, em razão do crescimento das importações em ritmo muito maior que o das exportações.

O superávit comercial do agronegócio (diferença entre exportações e importações) foi de US$ 41,2 bilhões, entre janeiro e agosto, e de US$ 58,5 bilhões, em 12 meses, acima dos US$ 56 bilhões previstos no início do ano. Sem essa contribuição, o déficit na conta corrente do balanço de pagamentos, de US$ 31,1 bilhões, entre janeiro e agosto, teria sido maior - e ainda maior a grita contra a taxa de câmbio, que penaliza o exportador.

As projeções apontam para a possibilidade de um déficit comercial da ordem de US$ 2 bilhões no ano que vem, com importações de US$ 230 bilhões e exportações levemente menores, além de um déficit em conta corrente superior a US$ 80 bilhões, ou US$ 30 bilhões acima de 2010.

O Brasil está colhendo, neste ano, uma safra recorde de grãos, da ordem de 147 milhões de toneladas. Para a safra 2010/2011, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) prevê 145,7 milhões a 147,9 milhões, mas ela poderá atingir 151 milhões de toneladas, caso se confirmem os prognósticos da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Na pior das hipóteses, portanto, o efeito La Niña poderia reduzir a safra a menos de 145 milhões de toneladas. Entre os efeitos negativos, tornar-se-iam menos produtivos os aumentos tanto dos investimentos quanto da área plantada.

As incertezas lançam responsabilidades adicionais sobre o setor agrícola, sem que o governo cumpra sua parte, ou seja, comprometa-se com uma ampliação dos financiamentos ao agronegócio e com ajustes na política de preços mínimos. Seria uma indicação de que compensará os agricultores das lavouras mais atingidas por fenômenos climáticos, numa safra em que já se prevê uma diminuição da produção de milho e apenas a manutenção da produção de soja.

Se o agronegócio contribuir menos do que neste ano para o equilíbrio da conta de comércio, será melhor estudar desde já a adoção de políticas para estimular os manufaturados, sob pena de deterioração cambial e de elevação do risco Brasil.

Fonte: Estadão