Notícias


Ervas daninhas ameaçam vantagens da soja transgênica

Publicada em 21-07-2009


Nas lavouras do Meio-Oeste americano, as maiores infestações são de amaranto e buva. No Brasil, a buva é o principal inimigo. A planta resistente ao glifosato se espalhou pelas lavouras do norte do Rio Grande do Sul e oeste do Paraná e já chegou aos campos de Maringá, no norte parananese.
"O problema é sério", diz o pesquisador Dionísio Luiz Piza Gazziero, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que retornou há 15 dias dos Estados Unidos, onde foi observar lavouras de soja infestadas por buva e amaranto. "No Brasil, nas lavouras mais infestadas, a queda da produtividade pode chegar a 40%, isto sem contar o aumento dos custos com herbicidas e a perda da qualidade da soja, devido à maior umidade e impureza dos grãos", acrescenta o pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa de Soja da Embrapa, de Londrina (PR).
Segundo Gazziero, o uso continuado do mesmo herbicida, no caso o glifosato, acabou selecionando plantas tolerantes e resistentes. Por enquanto, a maior ameaça à soja é a buva, mas outras plantas daninhas começam a ganhar expressão, como o amargoso, no Paraná, e o azevém, no Paraná e no Rio Grande do Sul.
"É aquela história da seleção natural de Darwin: você tem 10 plantas, uma delas, resistente. Quando você aplica o herbicida, consegue matar nove, mas fica uma. No ano seguinte, tem duas ou três que resistem, depois seis ou sete, até que as ervas se espalham por toda a lavoura", diz Gazziero.
Entre as soluções para controlar a buva, Gazziero cita a sucessão da soja com trigo ou aveia, em vez de milho safrinha, e o uso de outros herbicidas, com mecanismo diferente ao do glifosato. Estas práticas acabam anulando as vantagens da soja transgênica - a facilidade de manejo e o menor uso de herbicidas -, o que traz também menor impacto ambiental.
"O produtor tem que administrar muito bem o controle das ervas daninhas para evitar prejuízos", diz Gazziero. A tendência, segundo ele, é este problema aumentar, caso medidas de manejo não sejam adotadas. Além da troca de herbicidas, o pesquisador recomenda a rotação de culturas, inclusive entre a soja transgênica e a convencional.
"Esta, aliás, é a grande vantagem do Brasil, que, ao contrário dos EUA, não abandonou o cultivo da soja convencional e manteve seu programa de melhoramento genético. "Na soja convencional, o produtor pode voltar a utilizar herbicidas mais antigos para controlar plantas resistentes", diz Gazziero.

Infestação - É justamente agora, durante o inverno, que a buva começa a germinar nos campos. Como se trata de uma semente leve, ela acaba se espalhando facilmente pelo vento. "É uma erva de difícil controle e o ideal é não deixá-la crescer além de 10 centímetros. Para o caso de buva resistente, é necessário utilizar outro produto além do glifosato.
Nos EUA, segundo o pesquisador, os agricultores voltaram a utilizar herbicidas antigos para controlar as plantas daninhas na soja. "Embora o problema seja preocupante, há solução, desde que se faça o manejo adequado. Muitos agricultores já conseguiram controlar a buva com a adoção das técnicas indicadas. O problema é de todos nós: do governo, da indústria, dos agrônomos, dos pesquisadores e dos agricultores", diz o pesquisador.
Ele lembra que doenças como a ferrugem da soja costumam apavorar mais os agricultores do que ervas daninhas. "Mas elas são uma espécie de come quieto da agricultura. Silenciosamente, elas infestam os campos e reduzem o rendimento das lavouras", brinca Gazziero.
Na safra 2009/2010, a expectativa é de que as sementes transgênicas ocupem 55% da área plantada com soja no Brasil. Em estados como o Rio Grande do Sul, a soja transgênica já representa 80% da produção, mas em algumas áreas do centro-oeste, como Campos Novos de Parecis, Primavera do Leste e Sorrizo, a soja convencional ainda ocupa 80% da área destinada à cultura.
Um dos motivos da resistência dos produtores do centro-oeste à tecnologia dos transgênicos é o custo. Dados do Instituto Matogrossense de Economia Agrícola (Imea), relativos a abril de 2009, mostram que em Mato Grosso o custo da produção da soja transgênica (R$ 1.973/ha) é cerca de R$ 96 superior ao da convencional (R$ 1.877/ha).

Fonte: Jornal de Uberaba