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Campo sofre

Publicada em 27-10-2008


Os impactos da crise econômica que assolam o mundo já causam preocupação aos produtores rurais da região dos Campos Gerais. Para quem trabalha com exportação a situação é ainda mais drástica. Os produtores trabalham com um mercado internacional temeroso e poder de compra cada vez menor. Se no ano passado as vendas de trigo, por exemplo, atingiam as cifras de R$ 10 milhões, este ano a previsão é de a comercialização diminuir cerca de 70%.

O produtor e conselheiro do Sindicato Rural da região, Luiz Pilatti Rosas, revela que uma das situações que mais complica é o elevado custo de produção. "O adubo subiu, do ano passado para esse ano, de R$ 600 para R$ 1.600 a tonelada. Além do mais quando começamos a plantar trigo trabalhamos com venda de R$ 800 por tonelada e agora custa R$ 400. Ou seja, os reflexos da crise já podem sim ser sentidos", ressalta Pilatti.

Ele prevê que, devido a crise, a população mundial deverá se adaptar a uma nova realidade econômica. "O poder de consumo irá cair e todos deverão se adequar. Dessa forma, o mercado diminui, não tem para quem vender. É uma cadeia de dificuldades que toma conta do mundo. Qual será o tamanho do impacto no futuro? Isso só o tempo irá dizer", afirma Pilatti.

A preocupação em relação a essa turbulência econômica incomoda também o diretor do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento (Seab), Francisco Carlos Simioni. "Essa crise está indo como uma onda que não pára de crescer. A venda de matérias-primas, como soja e milho, para o mercado externo pode sofrer impactos", diz. Segundo ele, já houve redução de comercialização de julho até este mês. "Não sabemos o quanto diminui ainda porque os números ainda não foram fechados. O que já dá para saber é que a queda do milho é maior. A soja por ser mais dinâmica consegue se manter", explica Simioni.

O diretor do Deral também afirma que os custos da produção atrapalham os produtores. "A implantação e a manutenção aumentaram muito no último ano", comenta.

"Para enfrentar a crise ele afirma que é necessário prevenir, ter um capital para conseguir encarar os problemas", afirma Simioni.

80% dos produtores têm crédito

Segundo ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, aproximadamente 80% dos agricultores estão em condições de plantio e com crédito. Stephanes adiantou que se for preciso o governo pode liberar mais crédito para o setor. "Nós estamos acompanhando dia-a-dia o que está acontecendo em relação ao plantio, e à medida que se comprovar necessidade de crédito, efetivamente vamos tomar decisões", disse. O ministro reconheceu que existem questões "residuais", onde existem dificuldades para financiar o plantio.

Situação preocupa produtores locais

O gerente da Cooperativa Agrícola Mista de Ponta Grossa (Coopagrícola), Baltazar Printce, revela que a crise econômica traz impactos diretos para quem atua no ramo de cooperativas. "Estamos com uma redução dos preços de milho e soja. E ainda enfrentamos uma restrição de linha de crédito. Temos que zerar as contas para manter as lavouras, mas a situação já preocupa a gente", afirma.

Segundo ele, o preço do dólar poderia facilitar a exportação. "Mas com o atual cenário econômico complica, esse é o principal problema. Achar quem compre", diz.

O presidente do Sindicato Rural dos Campos Gerais, Sérgio Sozin, afirma que a principal questão é a dificuldade de conseguir liberação de recursos. "Os bancos restringiram os créditos rurais devido a essa inconstância de mercado", diz. Além do mais, Sozin relata que a queda dos preços dos produtos dificulta ainda mais a situação. "Não podemos nem cobrir o custo da produção. Dessa forma, o melhor a se fazer é ficar quieto, na espera do que o mercado reserva mais para frente", acredita o presidente.

Mesmo com a informação de que o Governo Liberal deve aplicar cerca de R$ 2,5 bilhões para a agricultura, o presidente do Sindicato acredita que essa quantia ainda não será suficiente. "Deve ser liberado mais, mesmo com esse dinheiro não será possível cobrir os custos da produção", afirma.

Ele ainda prevê que a situação pode piorar. "O Paraná é sempre o último estado que tem prejuízo em épocas de crise. É algo histórico. As perspectivas não são boas para frente. Tem que manter o pé no chão, aguardar passar o tempo para ver se essa crise se ameniza", aconselha Sozin.

Tendência é de os preços caírem

Segundo o diretor do Deral, Francisco Carlos Simioni, a tendência de mercado mais para frente é de que os preços normalizem. "Não dá para falar em tempo nessas situações. Mas quando você enfrenta uma crise internacional o mercado pode ter mais oferta, com isso a redução ou uma estabilidade de preços é quase certa", afirma.

Quando o assunto é a liberação dos R$ 2,5 bilhões para agricultura por parte do governo federal, Simioni aponta que essa é uma forma de "olhar para frente". "É necessário uma linha especial de crédito para dar suporte a safra 2008-2009. Não se pode correr riscos nestas situações", ressalta.

Como a crise afeta o Brasil

Tudo começou nos Estados Unidos como uma crise no pagamento de hipotecas que se alastrou pela economia e contaminou o sistema mundial. Banco atrás de banco por lá apresentou perdas bilionárias, outros chegaram a quebrar. Na Europa também há vítimas. No Brasil, a crise atinge vários setores por causa da forte contração de crédito.

As quebras e os problemas enfrentados por bancos até então considerados importantes e sólidos geraram o que se chama de "crise de confiança". E em um mundo de incertezas, o dinheiro pára de circular. E em uma economia globalizada, a falta de dinheiro em outro continente afeta empresas no mundo todo.

No Brasil, o principal efeito da crise é a dificuldade em se obter dinheiro. Grandes empresas que dependem de financiamento externo passam a encontrar menos linhas de créditos disponíveis.

Outra conseqüência da crise nos EUA é haver alguma desaceleração do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro. Isso porque o consumo das famílias e o investimento das empresas, dois dos principais pilares de expansão da economia nos últimos anos, cresceram justamente pela farta oferta de crédito. Com menos dinheiro, gasta-se menos, produz-se menos e o crescimento é menor.

Também serão afetadas as exportações do país, que devem cair porque os países compradores estão se desaquecendo e possuem menos dinheiro para comprar e menos população com capacidade de consumir.

Representantes de 10 federações ligadas à Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) reclamaram que os recursos anunciados pelo governo para a agricultura ainda não chegaram ao produtor, e que as dificuldades para a obtenção de crédito, principalmente para a compra de insumos, está latente.

"Não conseguimos achar, em todo o Brasil, um produtor que tenha conseguido acesso ao crédito anunciado. Com isso, dá para projetarmos uma queda superior a 5% para a próxima safra", afirmou o presidente da Comissão de Grãos e Oleaginosas da CNA, José Mário Schreiner. "O governo precisa urgentemente fazer com que as medidas cheguem ao campo porque há dificuldade para a renovação de créditos em todos os bancos".

Jornal da Manhã.