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Índios e produtores rurais afinam discursos em MT

Publicada em 19-09-2008


A Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso (Famato) realizou ontem encontro para tratar da alegada ameaça do estabelecimento de novas reservas indígenas às áreas de produção agrícola do Estado. Poderia ser mais um desdobramento da decantada disputa entre o avanço da produção de alimentos e a preservação ambiental se dela não tivesse participado um líder dos índios - e que fazia coro com o discurso dos produtores.
    
     "Trabalhamos muito com antropólogos, mas a idéia que eles têm é diferente. Querem preservar nossa cultura, mas põem obstáculos à nossa evolução. Também queremos integração e a possibilidade de produzir", afirmou o líder xavante Domingo Mohoro. "Se outro cacique viesse aqui, diria a mesma coisa".
    
     Diferentemente do que se poderia supor, Mohoro, que faz parte da Reserva Sangradouro, localizada a cerca de 300 quilômetros de Cuiabá, disse ser contrário ao estabelecimento de mais reservas indígenas no Estado. "Já temos área suficiente, de 116 mil hectares", disse. A reserva tem 34 aldeias e uma população total de 2,6 mil pessoas.
    
     Na agricultura, os índios da reserva dedicam-se à produção de milho, abóbora e mandioca, entre outras culturas, mas a produção e a produtividade são baixas, segundo Mohoro. "Temos área que poderia ser ocupada por lavouras mecanizadas, mas faltam máquinas agrícolas e treinamento", diz. A população xavante em Mato Grosso é de 11 mil índios. Segundo a Famato, as reservas indígenas cobrem 18,3 milhões de hectares no Estado, área que equivale a 20,3% de seu território.
    
     O terreno dedicado às reservas poderá ser ampliado. Áreas já demarcadas poderão ampliar as reservas indígenas em 5,5 milhões de hectares. "Em Mato Grosso, haverá uma área de reservas equivalente à do estado de São Paulo", diz o presidente da Famato, Rui Ottoni Prado. "São 25 mil índios no Estado. Não faz sentido eles precisarem de um Estado de São Paulo para se desenvolver".
    
     Se saírem do papel, as novas reservas ocuparão área equivalente à utilizada para o plantio de soja no Estado - na safra 2007/08, as lavouras de soja ocuparam 5,6 milhões de hectares. Mato Grosso é o maior produtor da oleaginosa no Brasil.
    
     Para pelo menos 2 milhões de hectares a demarcação definitiva está mais próxima, de acordo com o antropólogo Adalto Carneiro, que há mais de 30 anos trabalha com populações indígenas em Mato Grosso. Para essas áreas, distribuídas em municípios como Campos de Júlio, Brasnorte e Tabaporã, já foi publicada a portaria declaratória, etapa burocrática que antecede o estabelecimento de uma nova reserva, segundo Carneiro.
    
     Os produtores alegam que, com mais reservas, além de a expansão da agricultura ficar mais restrita, fazendas em que já existe plantio podem ser inutilizadas. Em contrapartida, Mato Grosso conseguiu melhorar sua produtividade de soja nos últimos anos mesmo com a diminuição da área de plantio - motivada, também, por fatores de mercado, e não exatamente por restrições ambientais.
    
     Na safra 2003/04, a soja ocupou 6,5 milhões de hectares no Estado, quase um 1 milhão de hectares a mais que a área que, de acordo com as primeiras estimativas, será usada para o plantio de soja na safra 2008/09.


Valor Econômico