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Soja transgénica na América do Sul

Publicada em 16-09-2008


Com uma produção superior a 105 milhões de toneladas, equivalentes a 72 por cento das exportações globais de soja, o Mercado Comum do Sul (Mercosul), bloco formado pela Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai relegou para segundo lugar os Estados Unidos, que na campanha agrícola de 2008 produzirá 87 milhões de toneladas.

O anúncio desta colheita excepcional é celebrado pelos governos, que, de forma impositiva, vão assistir à entrada de cerca de 70 mil milhões de dólares para os cofres fiscais, graças às exportações de soja.

As organizações rurais, comunidades indígenas, associações de cooperativas familiares e entidades ambientalistas advertem, contudo, para os perigos da monocultura transgénica, tanto em relação à soberania alimentar como no que respeita à saúde das pessoas, à biodiversidade, ao clima e à sustentabilidade dos terrenos.

Há organizações, como os Grupos de Reflexão Rural (GRR) da Argentina, que falam de «um novo genocídio provocado pelas multinacionais de sementes e herbicidas: Monsanto, Syngenta, Nidera, Bayer, Basf, Dow, Dupont e outras».

A grande procura mundial que levou à «sojização» do Mercosul surgiu no princípio do século, com a entrada da China e da Índia no mercado de consumo. Coincide com o início da chamada epidemia das «vacas loucas», que conduziu à eliminação das farinhas de ossos de animais nas rações para aves, porcos e gado bovino, e a sua substituição por farinha de soja. Junta-se a isto um grande atractivo para os agricultores: as sementes oferecidas pelas multinacionais dominantes são imunes ao herbicida glisofato e a outros agroquímicos por elas produzidos.

Além do mais, com sementes resistentes a herbicidas desapareceu a necessidade de tratar a terra e impôs-se o sistema de agricultura intensiva sem rotação de culturas e com uma necessidade mínima de mão-de-obra. Neste sistema não é necessário lavrar o solo, mas simplesmente arrastar uma máquina provida de pequenas aberturas pelas quais caiem as sementes. Basta um só homem para assegurar todas as tarefas.

Concentração, desertificação e desemprego

Segundo o agrónomo argentino Jorge Rulli, com este sistema de monocultura e a repetição irracional da agricultura intensiva – sem rotação, nem lavoura –, mais o uso obrigatório e contínuo de herbicidas, está a produzir-se uma desertificação biológica dos solos. Além disso, por requerer pouca mão-de-obra, o modelo expulsa os habitantes do meio rural. E como as culturas se optimizam quando se realizam em grandes extensões, produz-se também um fenómeno de concentração de terras.

Na Argentina, um estudo do Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária permitiu concluir que nos subúrbios pobres das três maiores cidades do país (Buenos Aires, Rosario e Córdoba), oito em cada dez desempregados são camponeses sem terra.

No Uruguai, um censo do Ministério da Ganadaria e Agricultura revelou que, entre 2002 e 2007, cerca de 25 por cento das terras cultiváveis (quatro milhões de hectares) passaram para mãos estrangeiras. Um grupo de apenas 54 produtores controla 57 por cento das terras aráveis (ver África21, Junho 2008).

O sociólogo paraguaio Tomás Palau traça um quadro dramático do seu país, que bem pode ilustrar, sem grande margem de erro, os demais do grupo transgénico do Mercosul. A explosão da soja – diz – teve dois efeitos: os ambientais, que se agravaram com o desaparecimento dos últimos bosques da região oriental e pelo uso indiscriminado de insecticidas e herbicidas como o glisofato; e os sociais, porque se assiste à expulsão massiva de famílias camponesas das suas terras.

Segundo Palau, o país sofreu uma quádrupla perda de soberania: depende das exportações de um só produto (o Paraguai é o terceiro exportador mundial de soja), cujas sementes são fornecidas por uma só empresa (Monsanto); não tem domínio sobre o seu próprio território, já que grandes extensões foram compradas por investidores estrangeiros, em especial brasileiros; e, por último, também se regista uma perda de soberania alimentar, porque a monocultura substitui a diversidade da agricultura de subsistência dos camponeses.

Apesar das advertências das organizações sociais, os governos continuam a impulsionar o cultivo da soja transgénica, o que deu origem ao fenómeno inédito de já não existirem mais terras para semear. Tendo em conta o que sucedeu até agora, a única opção para aumentar a fronteira agrícola é a destruição dos bosques naturais.

O Brasil assiste a uma devastadora invasão de soja na Amazónia. Na Argentina, nos últimos quatro anos, deixaram de existir 1.108.669 hectares de mata nativa, 760 hectares em cada dia. No Paraguai, Tomás Palau afirma que a soja expande-se sobre terras rurais e no que resta da área de selva oriental. No Uruguai, onde não existiam matas naturais, a expansão faz-se a custo da criação de gado, que desde os princípios do século perde 350 mil hectares anuais para a agricultura.

Herbicida incluído

O auge da oleaginosa conduz ao auge do uso do glisofato, o desfolhante da Monsanto que já foi denunciado como causador de malformações fetais e diversas formas de cancro.
Em 2007, os campos argentinos foram regados com 65 milhões de litros deste poderoso herbicida, e no Uruguai já se empregam mais de cinco milhões de litros.

Os governos nacionais, curiosamente, não fizeram investigações sobre os efeitos nocivos do glisofato. No entanto, existem estudos alarmantes. Na província ocidental de Paysandú, no Uruguai, o governo local denunciou a «notável perda» de massa muscular e consequente mortandade de peixes na água termal de Guaviyú.

Num trabalho publicado na revista Ecological Applications, da Sociedade Ecológica dos EUA, um grupo de cientistas argentinos revelou que o glisofato produz alterações substanciais na flora dos lagos e lagoas, especialmente nas colónias de algas que constituem o principal alimento dos peixes. O mais impressionante estudo foi realizado por Irina Ermakova, uma cientista da Academia de Ciências da Rússia.

A sua investigação concluiu que 55,6 por cento das crias de ratos de laboratório alimentadas com grãos de soja transgénica durante a gestação morreram nas três primeiras semanas de vida. Numa entrevista ao diário britânico The Independent, de 3 de Março deste ano, a cientista disse que entre as crias alimentadas de forma tradicional, a mortalidade foi de apenas 6,8 por cento. A morfologia e a estrutura bioquímica dos ratos são similares às dos humanos, o que faz com que estes estudos indiquem que existe um risco grave para as mães e para os seus bebés.

Soja política e financeira

As multinacionais sabem que contam com uma vigilância desatenta dos governos. Foi neste cenário que, em Dezembro de 2003, a empresa Syngenta publicou um anúncio nos principais diários da região. Sobre um mapa do Cone Sul da América, uma mancha verde ocupava boa parte dos territórios da Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai. Ao centro, uma legenda: «República Unida da Soja». No ângulo superior direito uma bandeira da hipotética república: um campo em tons de verde e, ao centro, um feijão de soja.

«O mais surpreendente não é a demarcação de uma área de cultivo mas a introdução de uma dimensão política numa alegoria que adquire a sua expressão máxima na representação de uma bandeira brasonada com um feijão. Ali se reflecte um conflito de poderes que está no centro do debate sobre a globalização: a perda de poder dos Estados-nação para as mãos das multinacionais», escreveu o uruguaio Gerardo Evia, um investigador da ONG Desenvolvimento, Economia, Equidade e Ecologia na América Latina.

As multinacionais não tiveram problemas em disseminar a sua filosofia pelos grandes jogadores deste fenómeno: os entusiastas cultivadores de soja transgénica. Com a soja, a agricultura transformou-se em mais um negócio financeiro.

Os seus gestores não aceitam diferenças subtis. Para eles, a agricultura e as finanças são o mesmo. Cobrem-se de possíveis riscos, contratando seguros, estabelecem os preços segundo o mercado de futuros de Chicago e distribuem a sementeira pela região, o que torna o negócio tão arriscado como qualquer outra actividade especulativa. A maior parte da colheita já está comprada «a futuro».

Face à crise imobiliária, iniciada nos Estados Unidos e estendida aos grandes centros de poder ocidentais, os fundos de investimento especulativo transferiram recursos extraordinários para o controlo dos produtos agrícolas primários produzidos no Sul. Na divisão internacional do trabalho volta a ter, como no século passado, o papel de produtor de matérias-primas adequadas para consumo do gado ou preparação de biocombustíveis. Para saciar a fome a porcos, vacas ou dos motores da China e da Europa.

África 21