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Sojicultor corta gasto e tira brilho da safra 2008/2009

Publicada em 19-08-2008


A safra 2008/09 de soja do Brasil, que prometia ser espetacular, está perdendo seu brilho às vésperas do início do plantio, pois produtores sinalizam investir e plantar menos do que o esperado, na medida em que o preço da commodity caiu cerca de 25% em relação ao recorde registrado em julho, disseram analistas.

Nesta segunda-feira, a soja abriu negociada em torno de US$ 12,40 por bushel na bolsa de Chicago, subindo fortemente durante o pregão, para cerca de US$ 12,70, mas a cotação ainda está bem abaixo do recorde registrado em 3 de julho, próximo a US$ 16,50.

Mesmo a alta deste início de semana anima pouco o setor. "O produtor está paralisado. Por quê? Ele estava vivendo um cenário de alta de insumos, mas trabalhava com um mercado extremamente altista. Depois dessas quedas, ele paralisou", disse à Reuters o superintendente do Instituto Mato-Grossense de Economia Agrícola (Imea), Seneri Paludo.

Mato Grosso, maior produtor de soja no país que é o segundo exportador mundial, inicia o plantio antes dos outros Estados, em setembro, após a chegada das primeiras chuvas.

Segundo Paludo, a combinação de custos mais altos, especialmente fertilizantes e sementes, e preços da soja mais baixos resultará em corte de despesas, para a conta fechar.

"O que vai acontecer de fato é redução de tecnologia, principalmente fertilizante", disse ele, referindo-se ao insumo que responde pela maior parte do custo de produção e que dobrou de preço em relação ao ano anterior.

De acordo com o analista do Imea, instituto ligado aos produtores, Mato Grosso precisa de 3 milhões de toneladas de adubo para plantar cerca de 6 milhões de hectares.

E, daquele total, um volume de 900 mil toneladas ainda não foi entregue pelas empresas aos produtores, ou porque eles não tiveram crédito para pagar a encomenda ou porque o sojicultor simplemente não fez o pedido de compra.

"O pedido está ali, se eles vão tirar ou não o pedido é uma coisa que só vamos verificar ao fim do mês. Mas eu diria que é preocupante quando caem as commodities com alguma consistência", disse Eduardo Daher, diretor-executivo da Anda, associação que reúne as empresas produtoras de adubos, ponderando o mercado está volátil e é cedo para conclusões.

Paludo, no entanto, afirma que a tendência é do uso aquém do necessário de fertilizantes. "O que me assusta - e isso é agronômico -, se adubar menos e se o clima não for perfeito, provavelmente a produtividade cairá."

Revisão de estimativas
Uma boa mostra do clima em que os agricultores de Mato Grosso se preparam para a próxima safra está nas vendas antecipadas da produção, bem inferiores às realizadas no mesmo período do ano passado.

Segundo o Imea, o Estado comprometeu apenas 20% da safra futura até o momento, contra mais de 50% em agosto de 2007.

"Estamos com a comercialização muito lenta, e acho que vamos ter que rever para baixo os números de intenção de plantio. O ímpeto de aumento de área neste momento é baixo. Soja abaixo de US$ 13 (base Chicago) para 2009, abaixo de US$ 14, isso não estimula o plantio no Brasil", afirmou Fernando Muraro, analista da consultoria Agência Rural.

Segundo ele, "a tensão é grande" especialmente em Mato Grosso, onde o "cenário já é negativo".

A Agência Rural estima o custo médio no Estado em R$ 1.381 por hectare e a receita em R$ 1.385, para quem produz 50 sacas por hectare. Mas esse custo não considera, por exemplo, pagamento de dívidas.

Segundo Muraro, a área plantada em Mato Grosso crescerá, ainda que menos do que o previsto, apenas com migração da soja para campos antes semeados com algodão, altamente fertilizados e que exigem menos adubação.

A consultoria havia estimado a safra brasileira em mais de 64 milhões de toneladas, ante 59,8 milhões em 07/08. Mas agora o analista já fala em uma projeção entre 62 e 63 milhões de toneladas.

No setor de sementes, a avaliação é semelhante à dos analistas.

"Não vai ter um grande aumento de área. Produtores vão usar menos tecnologia, e a tendência é diminuir a produtividade, já que as lavouras ficam mais suscetíveis a doenças", afirmou o gerente na Agro-Sol, Gladir Tomazelli, produtor de sementes em Campo Verde (MT).


Reuters News