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Com safra recorde no Brasil, a maior da história, pode sobrar milho no mercado

Publicada em 18-08-2008


A colheita da maior safra da história brasileira pode fazer com que sobre milho no mercado interno no final do ciclo 2007/08. Com o consumo doméstico estabilizado e a produção crescente, a demanda externa será a principal válvula de escape para “enxugar” o excedente e aliviar a pressão sobre os preços no pico da colheita da safrinha, agora em agosto.

Acontece que, justamente no ano em que o Brasil colhe uma safra recorde do grão, as exportações do cereal, que dispararam no ano passado e incentivaram a ampliação do plantio neste ano, já não demonstram o mesmo fôlego. No acumulado dos sete primeiros meses do ano, houve queda de 21% nos embarques brasileiros de milho, segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex). Entre janeiro e julho de 2008, as vendas externas do produto somaram 3,31 milhões de toneladas, ante 4,21 milhões de toneladas no mesmo período de 2007. A diferença só não é maior porque as vendas de março foram quase 120% superiores às registradas em igual mês de 2007, equilibrando as quedas registradas em quase todos os outros meses, em especial junho (55%) e julho (-64%).

Segundo as estimativas de safra mais recentes, o país terá de exportar entre 10 milhões e 12 milhões de toneladas de milho para que não haja grande excedente no mercado interno. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mantém inalterada a estimativa para as exportações de milho, apesar da atual lentidão nos negócios externos.

Nos cálculos da estatal, a produção total de milho do Brasil, somando a safra de verão 2007/08 e a safrinha 2008, deverá alcançar 58,5 milhões de toneladas, para um consumo de 44,5 milhões de toneladas. Nesse quadro, que inclui estoque inicial (do governo e das indústrias, de 6,6 milhões de toneladas), a Conab prevê exportação de 11,5 milhões de toneladas, acima das 10,9 milhões vendidas em 2007.

“Não há outra alternativa, vamos ter boa produção interna, e há necessidade de exportação para enxugar o excedente, e isso acontece depois da safrinha, de agosto para frente”, avalia a agrônoma do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Paraná, Margorete Demarchi.

Mas as vendas externas deste ano dificilmente repetirão o desempenho de 2007, acreditam analistas. A valorização do real frente ao dólar, a queda dos preços internacionais do milho, uma colheita acima do previsto nos Estados Unidos e a possibilidade de perda de competitividade em relação à Argentina, que abriu recentemente os registros de exportação, são os principais fatores que podem impedir o Brasil de embarcar os volumes previstos pela estatal. A Conab admite que as vendas podem não chegar a 11,5 milhões de toneladas, mas afirma que não devem apresentar recuos muito expressivos com relação ao ano anterior.

Conforme o analista da Consultoria Intertrading Carlos Alexandre Gallas, o desempenho das exportações brasileiras em 2008 vai depender do comportamento dos preços internacionais durante a colheita da safrinha brasileira. Ele explica que, apesar de os preços internacionais atuais serem elevados – mesmo com as quedas recentes –, ainda vale mais a pena vender o milho no mercado interno, que paga um valor superior ao indicado para exportação. Atualmente, o mercado exportador em Paranaguá paga ao produto do Norte do Paraná R$ 16,50, abaixo dos R$ 20,50 pagos pela indústria local.

Segundo ele, a diferença entre o que é pedido no mercado interno e o valor de exportação pode diminuir em favor das vendas externas neste mês, quando o avanço da colheita da segunda safra tende a pressionar para baixo os preços domésticos, o que tornaria o mercado externo atrativo novamente. Ainda assim, Gallas acredita que dificilmente o Brasil verá exportações tão significativas neste ano como as do ano passado.

Na sua avaliação, contudo, a possibilidade de o Brasil encerrar a safra 2007/08 com um excedente maior que o previsto inicialmente não é necessariamente má notícia. Para ele, com o desaquecimento das vendas externas de milho do país, esta é a hora certa para recompor os estoques reguladores.

João Paulo de Moraes Filho, gerente de milho e soja da Conab, concorda com Gallas. Para Moraes, o Brasil precisa manter entre 9 milhões e 10 milhões de toneladas de milho em estoque para abastecer a demanda interna durante a entressafra, em janeiro e fevereiro de 2009. “Consumimos pouco menos de 4 milhões de toneladas ao mês. Por isso, precisamos manter nossos estoques em níveis saudáveis para evitar o desabastecimento”, afirma.

Conab estima exportações em 11,5 milhões de t

Para alcançar a meta da Conab, de 11,5 milhões de toneladas exportadas, o país teria que enviar ao exterior 1,64 milhão de toneladas por mês. Em maio, mês de melhor desempenho das vendas externas neste ano, os embarques brasileiros do cereal não chegaram à casa das 700 mil toneladas. A companhia argumenta que, tradicionalmente, os embarques brasileiros de milho são concentrados no segundo semestre e que, por isso, ainda haveria tempo para tirar o atraso.

João Paulo de Moraes Filho, gerente de milho e soja da estatal, diz que o Brasil só não exportou mais milho no primeiro semestre porque os embarques do cereal concorrem com a soja. Segundo ele, no começo do ano os produtores costumam priorizar as vendas de soja. “O milho de verão vai para consumo interno. O que exportamos é o excedente da safrinha”, explica.

A AgRural, consultoria com sede em Curitiba, estima as exportações de milho do Brasil em 2008 em 10 milhões de toneladas. Para alcançar a meta da consultoria, o país teria que exportar mensalmente cerca de 1,3 milhão de tonaladas de milho. “É uma estimativa ambiciosa, dado o ritmo atual das vendas, mas não impossível. No segundo semestre do ano passado, o Brasil embarcou volumes inferiores a 1 milhão de toneladas apenas em dezembro, que já é quase entressafra”, diz o analista Gabriel Pesciallo.

A AgRural afirma que aguarda uma melhor definição da safra norte-americana para reavaliar suas projeções. “O desafio do momento é acompanhar as exportações dos EUA, nossos concorrentes diretos no mercado internacional de milho. Por enquanto, as vendas estão em ritmo acelerado, mas eles vão ter que pisar no freio uma hora ou outra. Resta saber quando isso vai acontecer. Mas, para essa pergunta, ninguém tem uma resposta ainda”, analisa.

A aposta da AgRural é que a demanda de milho para produção de etanol nos EUA continuará aumentando, abrindo assim espaço para o produto do Brasil no mercado internacional, como aconteceu no ano passado. “Também deve-se levar em conta que os norte-americanos precisam recompor seus estoques de milho depois de um tombo de 6,7% na área de cultivo na safra 2008/09. Para isso, terão que diminuir as exportações, já que o consumo interno daquele país permanece aquecido”, analisa Pesciallo. (LG)

Embarques do cereal são recentes

Exportar milho ainda é novidade para o Brasil. Há oito anos o milho não fazia parte da pauta de exportação do país, já que os embarques do cereal eram pouco representativos. Os primeiros volumes consideráveis foram registrados em 2001, quando 5,6 milhões de toneladas do grão deixaram os portos brasileiros. Nos cinco anos seguintes, o país enviou ao exterior entre 1 milhão e 5 milhões de toneladas.

Em 2007 as exportações explodiram: deram um salto de 180%, para 10,9 milhões de toneladas, e absorveram 21% da produção. No ano passado, as vendas externas de milho foram, em boa medida, sustentadas pela demanda européia, que ficou com 60% do total embarcado. O continente teve quebra na safra de trigo – lá é usado para a produção de ração – e precisou comprar milho para garantir o abastecimento. Recorreu ao Brasil, único país com excedente exportável de milho não-transgênico, uma exigência dos importadores europeus. Neste ano as safras européias devem ser cheias e o continente tende a reduzir as importações.

EXTRA MATO GROSSO