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Exportação de trigo ignora a crise

Publicada em 29-05-2008


Em meio a uma das maiores crises internas de abastecimento, o Brasil aumenta as exportações de trigo, que no acumulado do quadrimestre já superam em mais 500% o volume embarcado em todo o ano passado. De janeiro a abril, 587,4 mil toneladas do grão deixaram os portos brasileiros, quase seis vezes mais o total exportado em 2007 (102,5 mil t).

O fato inesperado foi causado pela forte alta dos preços no mercado internacional devido aos baixos estoques mundiais – os menores dos últimos 25 anos. Apesar de incomum, a situação não é inédita. Nos últimos dez anos, o país importou em média 60% do trigo que consumiu e em três ocasiões exportou quantidades significativas do cereal.

Em 2004, 22% da produção nacional (6,1 mi de t) foi exportada. Foram mais de 1,3 milhão de toneladas do grão, com 96% dos embarques concentrados no primeiro quadrimestre do ano. Em 2006, outras 651 mil toneladas de trigo foram vendidas ao exterior, o equivalente a 13% da safra daquele ano, que rendeu 4,9 milhões de toneladas.

Mas como pode um país que depende das importações para se abastecer exportar trigo? As explicações para esse questionamento misturam logística, mercado e questões tributárias.

Segundo uma fonte ligada à Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), o grão exportado no início do ano foi trazido da Argentina para o Brasil por uma empresa multinacional que atua no país, que em seguida o exportou por um preço mais competitivo que o pago pelo mercado nacional.

O presidente do Sindicato da Indústria do Trigo no Paraná (Sinditrigo-PR), Roland Guth, nega a origem, mas confirma o motivo. Segundo ele, o trigo exportado é parte da produção gaúcha do tipo brando, que é destinado exclusivamente à indústria de biscoitos e tem qualidade inferior e um preço menor no mercado.

José Gilmar Carvalho de Oliveira, corretor da Trigo Branco Representações Comerciais, com sede em Ponta Grossa (Campos Gerais), destaca que o principal mercado consumidor do trigo brando gaúcho está na Região Nordeste.

Como o mau estado de conservação das estradas brasileiras encarece e dificulta o transporte rodoviário, a melhor maneira para escoar o produto do Rio Grande do Sul para a Bahia, por exemplo, é via porto. Mas para isso é preciso pagar frete marítimo, incluindo Adicional para Renovação da Marinha Mercante (AFRMM) e despesas portuárias.

De fato, tanto em 2004 quanto agora em 2008, a maior parte do trigo exportado pelo Brasil (82% e 100%, respectivamente) saiu do Rio Grande do Sul. Segundo maior produtor do país, o estado é um dos poucos que tem o privilégio de ser auto-suficiente em trigo.

Como produzem mais do que consomem, os gaúchos costumam exportar seu excedente para outros estados. Mas quando a paridade de exportação é atrativa podem optar por mandar o produto para fora do país.

Para o presidente da Federação das Cooperativas de Trigo e Soja do Rio Grande do Sul (Fecotrigo), Rui Polidoro Pinto, foi justamente isso que aconteceu neste ano. Segundo ele, os embarques foram pontuais e ocorreram apenas quando os preços eram mais atrativos.

“Foram vários lotes, negociados com diferentes preços para diversos países. Trata-se de uma opção comercial. Houve uma oportunidade favorável, com preços atraentes”, afirma Polidoro. “É assim, num mundo globalizado surgem diversas oportunidades de negócios”, concorda Guth.

Fonte: Gazeta do Povo