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Mato toma conta de terra demarcada

Publicada em 30-04-2008


Área que já produziu mais de 100 sacas de soja por hectare foi abandonada após ser entregue aos índios

DOURADOS – O mato tomou conta dos 1.150 hectares que foram tirados dos produtores rurais que formavam o Distrito Panambi e entregues aos índios caiuás da Aldeia Panambizinho, em Dourados. A maioria das casas de alvenaria que eram habitadas pelos colonos e também foram entregues aos índios, após o pagamento de indenização pelo governo federal, foi destruída.

Até mesmo os galpões que eram usados para estocar parte da produção ou guardar maquinários agrícolas tiveram o mesmo destino. "Eles destruíram tudo que encontraram pela frente, tanto que as casas foram demolidas e os telhados, portas, janelas foram trocados por cachaça com pessoas que vinham da cidade para levar os materiais", conta o lavrador Cícero Antônio Fernandes dos Santos, que há mais de 40 anos reside na região do Panambi.

O cenário no Panambi é conflitante. Na área que não foi desapropriada, a lavoura de milho cresce e anuncia a expectativa de mais uma safra recorde, enquanto nos 1.180 hectares que passaram para o domínio dos caiuás o mato seco cobre todo o terreno. Ontem, por volta das 10h30, um grupo formado por cinco índios adultos e uma mulher consumia bebida alcoólica na estrada que dá acesso à aldeia.

Na área urbanizada do distrito, índios perambulavam pelas ruas enquanto um grupo pequeno estava postado em frente a um estabelecimento comercial. "É assim todo dia, eles saem da aldeia, ficam andando pelo distrito e quando a noite chega alguns retornam para suas casas enquanto outros passam a consumir mais bebida", conta Cícero.

Para ele, a demarcação da área e a conseqüente desapropriação determinada pelo então ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Nelson Jobim, gerou prejuízos tanto para os colonos quanto para os índios. "Antes, os produtores empregavam grande parte dos caiuás que moravam na Aldeia Panambizinho e eles conseguiam viver com dignidade, sustentando a família com o próprio trabalho, mas agora que são donos da terra eles não conseguem plantar nem para subsistência e não têm mais para quem trabalhar", explica o agricultor. "Eles vivem perambulando bêbados pelas ruas dos distritos e sobrevivem graças à ajuda dos moradores", completa.

Deserto

O lavrador Cícero Antônio Fernandes dos Santos é taxativo ao afirmar que a demarcação transformou o Panambi num verdadeiro deserto. "Houve uma época em que os colonos colheram mais de 100 sacas de soja por hectare aqui no Panambi e nosso distrito era recordista na produção de soja e milho, mas hoje chega a doer no peito quando a gente vê uma terra tão fértil tomada pelo mato", lembra. "Hoje, os 1.180 hectares demarcados não cumprem qualquer função social, já que os índios dependem de cestas básicas da Funai para alimentar suas famílias e muitos ainda trocam as cestas por cachaça", desabafa.

A opinião dele é compartilhada pela agricultora Terezinha Freitas de Oliveira, que não perdeu a área para a demarcação, mas é vizinha da aldeia. "Como os índios não têm mais para quem trabalhar e como a Funai não garante assistência técnica para que eles produzam o próprio alimento, a maioria passa o tempo bebendo cachaça", revela. "Sempre amanhece algum índio dormindo no meu quintal, mas não posso fazer nada além de esperar ele acordar, dar comida e pedir que volte para a aldeia", conta. "Depois que os agricultores foram assentados em outro local, os índios ficaram sem qualquer ocupação já que ninguém mais quer dar trabalho para eles com medo de, no futuro, perder a terra", explica.

Fonte: Jornal O Progresso