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Milho é considerado o vilão da alta de preços

Publicada em 29-04-2008


Governo e usineiros enumeram uma série de argumentos para comprovar a "inocência" do etanol de cana do Brasil e a "culpa" do etanol de milho dos Estados Unidos na alta dos preços dos alimentos. Também querem provar que o etanol de cana contribuiu mais para evitar o aquecimento do planeta.

De acordo com estudo do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), elaborado a pedido do Valor, três aspectos comprovam as vantagens do etanol brasileiro: evolução da área plantada, alta dos preços em relação ao petróleo, e a emissão evitada de carbono.

A área de milho nos EUA saiu de 32,2 milhões de hectares em 2000 para 34,8 milhões em 2008, alta média de 1,6% ao ano. É a única cultura com tendência de crescimento e o etanol é a principal causa. O consumo do combustível à base de milho subiu de 20,35 bilhões de litros em 2006 para 25,9 bilhões em 2007, segundo a Associação dos Combustíveis Renováveis (RFA, da sigla em inglês). A capacidade produtiva dos americanos saltou de 16,4 bilhões de litros em janeiro de 2006 para 20,79 bilhões em janeiro de 2007 e 27,36 bilhões em janeiro deste ano.

Como não é possível aumentar a área plantada nos EUA, o milho tomou espaço de outras culturas. Entre 2000 e 2008, as áreas de soja, algodão e arroz recuaram, respectivamente, 0,7%, 4,7% e 1,8%. Em 2008, ocorreu uma inversão, porque os preços da soja dispararam e surgiram dúvidas sobre a viabilidade do etanol de milho. A área do milho nos EUA caiu de 37,9 milhões de hectares em 2007 para 34,8 milhões. Já a área plantada de soja subiu de 25,7 milhões de hectares em 2007 para 30,3 milhões este ano, conforme o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).

Os agricultores brasileiros plantaram 2,4 milhões de hectares de cana-de-açúcar e 7,6 milhões de hectares de grãos a mais, ao mesmo tempo, entre 2000 e 2008, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A soja puxou o aumento dos grãos, respondendo à demanda asiática. O incremento médio anual no Brasil foi de 6,6% na soja e 5% na cana entre 2000 e 2008. Por conta da concorrência da soja, a área de milho (safra de verão) caiu 0,7%, mas a "safrinha" subiu 7%, evitando a escassez do grão.

Na Europa, o cenário é o mesmo que nos EUA. A área plantada de canola - commodity destinada à fabricação de biocombustível - cresceu 3,8% entre 2000 e 2008. Segundo o USDA, os 27 países da UE tiveram queda anual de 0,7% na área de cevada, 1,1% na área de milho e 1% na área de sorgo.

Toda essa "movimentação" no campo provocou explosão dos preços. As cotações do milho subiram 224% entre 2005 (quando o consumo de biocombustível nos EUA explodiu) e 2008. No mesmo período, a valorização chegou a 254% no óleo de soja, 294% no óleo de palma e 213% no óleo de canola. Os do açúcar subiram menos, 126% - a Índia teve quebra de safra, depois investiu mais na cana.

Para André Nassar, diretor-executivo do Icone, é "natural" que os preços dos alimentos sigam de perto os do petróleo. O combustível fóssil é determinante nos custos da agricultura desde a gasolina utilizada nos tratores até os fertilizantes. "O problema é que os alimentos estão mais caros", diz. Entre 2000 e 2008, o petróleo subiu 179%. Nassar atribuiu esse fenômeno aos biocombustíveis e calcula sobrevalorização comparado ao petróleo de 25% no milho, 42% no óleo de soja, 64% no óleo de palma e 19% no óleo de canola. No açúcar, houve desvalorização de 29%.

Outro argumento do Brasil é que a cana possui um balanço energético melhor. No etanol de cana, são geradas 8 unidades de energia para cada unidade de energia gasta de petróleo na produção. No milho, essa relação é de 1,5. A cana é mais eficiente porque o funcionamento da usina é feito com base no bagaço; no etanol de milho gasta-se bastante petróleo.

Essa diferença tem forte impacto na emissão evitada de gás carbônico, se a conta é feita considerando toda a cadeia de produção. Ao se substituir o petróleo pelo etanol de cana, a emissão evitada de CO2 é de 80%. No milho, está em apenas 35%. Se for incluído na conta o desmatamento de florestas, o resultado e se torna desfavorável ao país.

A discussão é polêmica. Os agricultores brasileiros dizem que a cana não avança em área de floresta, mas nas pastagens. As organizações não-governamentais rebatem que o efeito é indireto, porque as pastagens expulsas pela cana vão para a floresta. Os usineiros argumentam que a devastação da Amazônia não tem nada a ver com a cana e é provocada por outros fatores como extração de madeira e demanda por soja.

Fonte : Valor Econômico