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Queda do dólar impõe perdas para agricultores

Publicada em 29-05-2007


Porcentagem de rentabilidade de produção terá queda considerável na próxima safra

A tendência baixista do dólar – que despencou para menos de R$ 2 na última quinzena deste mês – impõe fortes perdas para os agricultores mato-grossenses antes mesmo do início do plantio da safra 07/08. De acordo com levantamento da Agência Rural (AgRural), a rentabilidade sobre o custo operacional do produtor de soja do norte de Mato Grosso, que na safra atual é de cerca de 14%, cairá para patamares de 5% na próxima safra, caso o câmbio continue mantendo a atual trajetória.

Os prejuízos são incalculáveis. “Vai depender da variação cambial”, admitem os analistas, confirmando o cenário de perdas mesmo se os preços internacionais na Bolsa de Chicago continuarem em ascendência. Nesta semana, uma nova previsão de analistas jogou água fria no segmento produtivo: nos próximos três meses o dólar deve romper a barreira dos R$ 1,80.

Em um ensaio com o dólar cotado a R$ 1,80 e as cotações de Chicago e prêmio, no final do ano a saca ficaria cotada abaixo dos US$ 11. A perda então seria de aproximadamente US$ 1 para cada saca de soja produzida no Estado e, levando-se em conta uma produção igual à deste ano - 15,5 milhões de toneladas - os prejuízos poderiam alcançar a cifra de R$ 263 milhões na próxima safra.

A AgRural informa que os contratos para a próxima safra estão sendo negociados em média a US$ 8,27 por bushel (padrão de medida norte-americano equivalente a 27,2154 quilos), valor 26% superior à média de comercialização da safra 06/07 no Estado.

A questão, contudo, está no impacto da cotação da moeda norte-americana nos preços do frete. "O real é a moeda que forma o valor do transporte no Brasil - custos com diesel, manutenção, etc. Quando este custo é convertido para dólar nas baixas cotações, o valor fica mais alto", explica Fernando Muraro, analista da AgRural. Ele estima que o frete de Sorriso (460 quilômetros ao médio norte de Cuiabá) até o porto de Santos (SP) saltará na próxima safra para níveis entre US$ 105 e US$ 110 a tonelada, 16% acima do valor médio adotado no atual ciclo (US$ 95).

Segundo o analista Eduardo Godoi, toda formação de preço da soja caminha em dólar até o porto. “Do porto para dentro, o custo é em reais. Quando se transforma o custo da logística para dólar e quanto mais fortalecido é o real, mais o produtor sai perdendo”.

SORRISO – No caso de um produtor de Sorriso que irá transportar sua produção até ao porto, a perda é monstruosa. “Ao invés de multiplicar por R$ 2,15 - câmbio da formação de custos da lavoura em outubro e novembro, na época do plantio - hoje, se multiplica por R$ 1,94. “Além da redução desse resultado direto, a formação de preços com o real fortalecido faz com que os preços em dólar, no interior, sejam menores”, frisa o especialista da AgRural.

Godoi lembra que o produtor perde duas vezes: a primeira com a conversão direta, em que o preço da saca da soja é estipulada em dólar, pela cotação do dia. “Esta é uma perda direta para o produtor. Com a saca cotada a US$ 11,60, por exemplo, ele terá R$ 22,60 com o dólar fixado em R$ 1,94. Se o dólar estivesse cotado pelos mesmos R$ 2,15 da época do plantio, a saca da soja valeria R$ 24,94 para o produtor”.

A segunda perda, na avaliação do analista, reside na redução de receita indireta, que vem da formação do preço e leva em conta a cotação de Chicago, prêmios de exportação (que podem ser positivos ou negativos) e os custos logísticos. “Quanto mais fortalecido o real, mais altos serão os custos logísticos em dólar para o produtor”, reforça Godoi.

FRETE - Segundo ele, o frete Sorriso-Paranaguá (PR) está custando hoje cerca de R$ 180/tonelada, ou US$ 92 com o dólar cotado a R$ 1,94. O mesmo frete, no final do ano passado - com o dólar a R$ 2,15 - custava cerca de US$ 80/tonelada.

“Isso impacta diretamente na formação de preços, pois quando pegamos as cotações de Chicago e os prêmios de exportação e subtraímos pelos custos logísticos em dólar, temos a nossa formação de preços”.

Godoi ilustra a sua matemática com um exemplo: “Com Chicago a US$ 7,93/bushell, menos US$ 0,23 de prêmio para exportação, menos US$ 90 por tonelada - despesas diversas - o produtor receberia US$ 11,60 pela saca de soja em Sorriso. Com essa mesma formação de Chicago e prêmios similares, porém com custos logísticos calculados com dólar a R$ 2,15, a saca ficaria cotada em US$ 12 e não a US$ 11,60”.

Fonte: Diário de Cuiabá