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Tendência de alta dos grãos permanece inabalável

Publicada em 03-12-2007



Os preços internacionais dos grãos estarão mais elevados no início de 2008 do que estavam no começo de 2007. São prognósticos que dominam o mercado há meses, e nem o refluxo dos investimentos na produção de etanol de milho nos EUA parece capaz de contradizê-los. "É um exagero dizer que a alta dos grãos ocorre só por causa do programa de biocombustível dos EUA. A demanda asiática por alimentos está crescendo muito", diz José Roberto Mendonça de Barros, sócio da MB Associados. "E estamos apenas no comecinho desse movimento. A Ásia tem uma demanda não apenas por volume, mas tem crescido também a exigência por maior qualidade".


Por conta desse cenário, destaca, as exportações brasileiras de milho acumuladas até outubro foram de 8,8 milhões de toneladas, um avanço de 177% em comparação com o ano passado. Na soja, por outro lado, que acumula 22,4 milhões de toneladas embarcadas, a queda foi de 5%. "O milho se destacou até mesmo no segundo semestre, quando tradicionalmente a exportação de soja é mais forte. As perspectivas são positivas para o preço dos grãos", avalia o economista. Em parte por conta das exportações, cresce a pressão para a liberação das importações do grão transgênico sobretudo para abastecer a região Nordeste.


Para a soja, o horizonte é de produção mundial 6% menor no próximo ciclo, mas o consumo estimado deverá crescer 4%, para 233,5 milhões de toneladas - a produção deverá superar o consumo, o que não ocorreu nas últimas três safras.O preço do grão, que está em alta desde o segundo semestre do ano passado, aproxima-se dos US$ 11 por bushel. "É a "teoria da escada": um grão, quando sobe, puxa o avanço do outro. O milho é que subiu primeiro", diz Mendonça de Barros. Os contratos futuros na bolsa de Chicago apontam para um pico de preços em meados de 2008.O trigo, que enfrentou quebras de safra em produtores importantes como Ucrânia e Austrália, está com os estoques em queda desde a safra 1999/00. Os preços retraíram-se nos últimos meses, mas os contratos futuros apontam elevação ao longo do primeiro trimestre do próximo ano, sempre acima de US$ 8 por bushel. Além disso, os estoques devem decrescer ao nível de 100 milhões de toneladas, o que, a se confirmar, será o menor dos últimos 29 anos.Mendonça de Barros critica a proposta argentina de taxar as exportações de grãos - com os preços das commodities elevados, a Argentina pretende taxar as vendas externas para criar reservas para o caso de as cotações voltarem a cair. "Essa é uma proposta ingênua, de quem desconhece a agricultura e seus custos com impostos e falta de infra-estrutura.


O atual aumento dos preços repõe um pedaço das deficiências com os custos do setor", afirma o economista. "É uma proposta estúpida". Na esteira dos grãos, os preços da carne devem manter o movimento ascendente. "O ano termina melhor do que começou em relação aos preços das carnes. A alta dos grãos pode levar o preço da carne para patamares de cinco anos atrás, mas o impacto sobre a inflação, se ocorrer, não deverá ser significativo", disse Pedro de Camargo Neto, presidente da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs). "Havia uma previsão de alta, mas não era consensual. Agora, é consenso: o ano termina bem melhor".As boas perspectivas de preço somam-se à possibilidade de abertura de novos mercados - em maio, Santa Catarina recebeu o reconhecimento como área livre de febre aftosa sem vacinação.


Os produtores mantêm a expectativa de obter, até o fim deste ano, a autorização de exportar carne para o Chile. O novo mercado tem potencial para ser o quarto ou quinto maior comprador de carne brasileira, acredita Camargo Neto.Entre 1997 e o ano passado, as exportações brasileiras de carne bovina subiram 665%. O avanço manteve-se mesmo com a valorização do real em comparação com o dólar. "Mesmo sem resolver um problema ridículo como o da febre aftosa, as exportações cresceram. O Brasil só aprende quando toma prejuízo", disse.


A alta do preço do petróleo puxou a demanda por etanol de milho e, na esteira, a do álcool combustível à base de cana. O crescimento da frota de carros flex aumenta a procura por etanol, mas não é possível prever se o preço atual se repetirá na próxima entressafra de cana-de-açúcar, avalia Marcos Jank, presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). "Mas é preciso aumentar o número de agentes de comercialização. Isso ao menos reduziria a variação sazonal tão grande que ocorre em toda entressafra", diz.Atualmente, as distribuidoras só podem negociar 5% dos estoques com outras distribuidoras. "E os postos deveriam poder comprar álcool hidratado diretamente das usinas ou de terceiros, e não apenas das distribuidoras de suas bandeiras. Isso poderia reduzir os custos de transporte e baratearia o preço final", afirma Jank.


Fonte: Folha MT